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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

As almas são coisas muito frágeis,

JOAQUIM PESSOA
 
POEMA XVI (excerto)

As almas são coisas muito frágeis,
capazes de vitórias devastadoras e derrotas infelizes,
ambas terminando num segundo mas...

durando para sempre. Falhamos
sem testar as falhas. Vencemos
por vezes como se fosse um desastre.
Descobrir e resolver um problema são coisas diferentes,
hoje vemos ao vivo o fracasso em directo, a cores,
a esperança a cores,
o sofrimento a cores.

E temos, da incapacidade, as melhores fotografias.

Esta é uma visão fantástica. Que Deus
abençoe as nossas intenções
e perdoe a nossa vontade.

*
(A publicar em "POEMAS POLÍTICOS
em 2014, por Edições Esgotadas).

Alguém disse palácio para dizer mulher

Alguém disse palácio para dizer mulher
ou a delícia de um nome q
ue era desejo e mundo
Um delicado navio rasgava o corpo na ausência
e morria na espuma de uns amorosos pés
da volúvel semelhança de uma estátua de veludo
Era apenas um nome a abolição de um nome
descobrindo a primavera absoluta
com os ramos brancos de uma estrela
perfeita nos músculos de lâmpada
No alto poderio das pernas no sumptuoso espelho
das ancas verdes cintilava o palácio
da adoração primeira com janelas de um navio
de sombra e de silêncio em que o oiro estremecia
Opulenta pálpebra povoada
pelos frutos da água e de um fogo azul
E se o nome morria na respiração do seio
a sua ferida era límpida e puro era o deserto
 
ANTÓNIO RAMOS ROSA, in Os animais do Sol e da Sombra seguido de O Corpo Inicial (Quási, 2003) 

 


http://youtu.be/ml8Am9KIMsQ

sábado, 31 de agosto de 2013

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade ...

onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Bach - Cantate BWV 122 - little child


“Revorta é ter-se nascido/Sem descobrir o sentido/do que nos há-de matar”. Natália Correia

 
 
Jean-Sébastien Bach - Johann Sebastian Bach (1685-1750)
 
Pintura: La Nativité (Piero della Francesca)


 
http://youtu.be/N9XObSQXXII

quarta-feira, 17 de abril de 2013

"O Amor Aqui de Casa"


A menstruação não desce
A chuva não dá sinal
Quem seu mal no mel padece
Seu bem conserva no sal
Vai doer de novo o parto
Vai secar de novo o açude
Vida aqui tem sala e quarto
Quem não couber que se mude
O amor daqui de casa
Tem um sentimento forte
Que nem gemido na telha
Quando sopra o vento norte
Que nem choro de boi morto
Três dias depois da morte
Quem só conhece o conforto
Não merece boa sorte
O amor daqui de casa
Tem um sentimento forte
Com gosto de umbu travoso
Com cheiro de couro cru
O amor daqui de casa
Bate asas no verão
Faz parte da natureza
É arte do coração

(Letra de Gilberto Gil para o tema de Darlene do Filme: "Eu, Tu Eles")

http://youtu.be/cKa4aLv67bs*********http://youtu.be/xI3qkWoGjB0

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

JOSÉ LUÍS PEIXOTO

FOTOGRAFIA DE SÃO FRANCISCO
São Francisco és tu e são as tardes que passávamos
no sofá, sentados ou deitados de todas as formas,
em todas as direcções. Não guardo ressentimentos
de São Francisco e chegará um tempo em que,
de novo, seremos capazes de passar um fim-de-semana
entre chapéus de sol e sol. A Califórnia não é eterna,
mas há um certo tipo de silêncio que se procura
sempre e que se encontra apenas muito raramente.
Esse é o teu brilho, São Francisco. Vais ver, teremos
camisas de flores coloridas e saberemos rir-nos
de tudo. E, contra todas as expectativas, quando
um de nós estiver a morrer, o outro estará lá.

FOTOGRAFIA DE ABIDJAN

Abidjan tem cicatrizes nas ancas.
Cuidadoso, pouso as mãos noutro lado,
seguro Abidjan pela cintura.
Não porque as cicatrizes sejam dolorosas,
há muito que Abidjan se habituou a elas,
mas porque me fazem impressão a mim.
As cicatrizes de Abijan foram-lhe feitas pela avó
com um ferro em brasa, quando era criança.
Eu e Abijan bebemos garrafas de coca-cola.
Seguramo-las como algo valioso,
somos senhores por um momento.
Abidjan diz: mostra-me o teu quarto,
e eu, não sou capaz de resistir.

FOTOGRAFIA DE MADRID

Madrid regressará sempre. São precisos anos
para aprender aquilo que apenas acontece com
a distância de anos. É por isso que posso afirmar
que Madrid regressará sempre. Não sei que tipo
de entendimento encontrámos. Eu e Madrid não
nos conhecemos bem. Sabemos o essencial e
inventamos tudo o resto. Tanto a minha vida,
como a vida de Madrid, já tiveram muitas formas.
No entanto, quando nos encontramos, somos
sempre o mesmo nome. Avaliamo-nos por
cicatrizes e pequenas marcas de idade.
Não estabelecemos metas, estamos cansados.
Eu e Madrid só queremos uma cama, mas,
se não houver, contentamo-nos com o chão e,
se não houver, contentamo-nos com um abraço.

JOSÉ LUÍS PEIXOTO, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi

sábado, 19 de janeiro de 2013

Agni e Soma



Gosto de me vestir toda de branco
Curta, calças e turbante.
Trago com orgulho sobre a fronte
O quarto crescente do deus Lua
E sentada na escadaria de Varanasi,
Vejo a deusa Sol aparecer, resplandecente,
Repleta de ouro, rubis e diamantes.
Vejo-te, inundando o Ganges,
Na cidade santa
Onde tantas vezes mergulhei inebriada do teu amor,
Percorrendo a via láctea do meu desejo!
Correndo para ti ó Mãe, bebendo o teu néctar...
Ardendo na insanidade do meu delírio
Que me parece ser tudo um sonho, ainda...
É uma lembrança que tenho, doutro tempo, milhares de anos...
Desde o início dos tempos em que te consagrei minha Rainha.
E ainda hoje espero ver-te aparecer, num sari vermelho,
todo bordado a ouro e diamantes.
A porta do templo onde me encontro,
Todo vestida de branco, Curta, calças e turbante...
Ó Surya, vem...


'Antes do Verbo era o útero' de Rosa Leonor Pedro

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

AS MINHAS MÃOS



 

As minhas mãos magritas, afiladas,

 Tão brancas como a água da nascente,

 Lembram pálidas rosas entornadas

 Dum regaço de Infanta do Oriente.

 

Mãos de ninfa, de fada, de vidente,

 Pobrezinhas em sedas enroladas,

 Virgens mortas em luz amortalhadas

 Pelas próprias mãos de oiro do sol poente.

 

Magras e brancas...Foram assim feitas...

 Mãos de enjeitada porque tu me enjeitas...

 Tão doces que elas são! Tão a meu gosto!

 

Pra que as quero eu -- Deus! -- Pra que as quero eu ?!

 Ó minhas mãos, aonde está o Céu?

 Aonde estão as linhas do teu rosto?

 

Florbela Espanca

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

E. um fogo


um fogo
em cada mão
ervas -
árvores
acacia anegadensis
acacia melanoxylon -
noite pétala areia água
um nome tão submerso e
indistinto
o modo como nos levamos
como nos arranjamos -
como queremos a terra por dentro -
como pomos boca língua lábios no odor
como somos simétricos como caímos
(como o ocidente)
mapa e infância
odor e gesto
nuca e perfume
e os olhos ao centro de onde
toco de onde te toco onde
tens essa fome tão negra tão vermelha
essa que não aparece na fotografia
essa onde tens um fogo uma rosa
em cada mão essa por que eu digo
essa por que me fazes dizer
rosa árvore estrela
e a coisa marcante
essa coisa delirada essa assim tão arranjada
que tens como tens a minha boca
essa coisa arrumada aprumada dada
pelo teu assim simples gesto tão secular
de tocar a alma dos gerânios
diante daquela parede onde tive
o teu corpo
essa coisa que eu sou
pelo teu tão envolvido gesto de me cegares
onde eu quero
tenho-te mais ainda quando (te) perco
o odor dos teus joelhos
ou essa estrela essa pátria cor de mármore
esse musgo esse lastro que é como o amor ou
uma criança em meio da paisagem
(como em meio do poema eu)
assaltada pelo perfume
uma criança a dizer os nomes
uma criança a amar o centro
dos mapas a dizer
minha pátria tão infância
a dizer
como me seguras o sangue todo
como me arranjas o lugar de eu ser
aquele que diz o centro desse laço
e a cor dos lábios vermelhos a dizer
oliveiras acácias magnólias
(um modo de cair)
a querer
todo o odor do mundo
todo nos ramos o peito cercado
o sangue extremo de te tocar onde
tens a giesta mais densa
e essa fome assim tão medieval de me levares
de me despires diante das janelas sob
as ramagens carregadas de frutos
de me quereres pelo meio (por)
essa fome de não termos nem casa
nem nome apenas
dois fogos um em cada mão e
uma árvore na memória e
terra e sangue e
a fome secular da madeira
a fome a seiva o sangue (e o poema)
ao centro o rosto
um barco vermelho ou
dois vulcões
um em
cada mão
um fogo
e o amor ao centro como na fotografia
uma infância toda rasa toda entrada (tão)
no peito
e de lábio a lábio
de um lado e do outro
ervas
estrelas como sementes
rosas
sobre a mesa
a fauna que queremos -
pernas pele calor lábio mel
eu canto eu decanto –
e o odor -
e eu a querer-te já
como uma fome toda
sem nome -
(o sangue hasteado raso como um rio ou
como uma árvore uma casa no pó sem nome
como te respiro a vagem que me abres
amarela quando o sol
e sempre já
pretérita no ensejo)
da tal semente vermelha
pelo peito
pelas pernas pelo laço pelo lastro
quero-te assim
navegada acesa
e de seda quando te toco entre
o calor o sangue
quando te toco onde não tens mais nome
onde és desde sempre coisa acesa
onde sou fogo ladeado
barco lábio e semente
quando me semeio
quando sou coisa semeada
quente coisa de seiva
quando sou coisa colhida
quando te colho pelos ombros
quando quero os teus lábios
quando somos infância entrada
no calor
quando somos
dois fogos entre quatro braços
como naquele quadro de klee
que nunca te mostrei
que nunca te disse
como – quando – conto o tempo todo
pelo movimento dos teus lábios
ou todo o espaço está contido nesse
movimento de segurares de pousares
duas rosas sobre a mesa
e esse peito ladeado
esse movimento que arranjas
esse fogo que adornas
e o calor e o odor e o sangue com que me cercas
e esse gesto de segurares de teres
a infância sempre
ao meio do peito
o dia todo ao meio do rosto
(e te deitas erva)
para me dizer
como me queres
como (me) escolhes
como te colho
e como te não cinjo toda
como te sinto
semente vermelha
semente aberta
como uma fome tão certa
como dentro da madeira
a seiva coisa sublevada
(no poema)
quero-te ainda mais quando tens o fogo
entre duas mãos duas rosas pela cintura
e me cercas assim com
(metáforas)
a tal coisa que fazemos
com o mel e os lábios e o tempo
ao meio do dia
ao meio do peito
com a infância ao meio das mãos
todas as coisas que fazemos com a água
e os membros a pele a boca e o perfume
despidos
pétala a pétala tão nus
como o outono nas florestas
tão nus como um outono sem árvores
as coisas que fazemos com o amor
o fogo a lei o sangue que partilhamos sempre
à refeição
e os olhos
como crianças cegas
(assim tão subjugadas ao
jogo/jugo)
somos barco e lábio
pedra e memória
somos seiva árvore crianças cegas
(somos mãos: coisas de odor e pele)
viajando sobre os mapas
juntos somos sós
como uma paisagem sem lábios
como rios sobre a mesa temos
todas as horas ao centro do sangue
onde me tocas quando dizes que amas
e somos inteiros como frutos como
o pão
sobre a mesa
gosto quando és rosa arranjada
como te espraias pelo meu pensamento
quando me joias o sangue todo
quando eu tento dizer
a infância tão agrária de termos
entre dois braços essa coisa
densa sem memória sem séculos
essa só coisa sem erudição nenhuma
como o fogo tão descalço sobre a pedra nua
como te quero
eu sou apenas o gesto de te beijar os joelhos
e esse sangue ao centro onde seguras
tudo o que te dou
onde seguras esse gesto essa rosa
esse delta que eu quero com toda
a minha areia com toda a minha água com
toda a minha fome
essa pátria tão traída
a areia a água intraduzível
essa de dizer como tu
seguras esse movimento que me faz
esse que eu faço como sou
semente aberta pátria solícita
lugar incrível de te ter pela anca
pela boca de ter pelo que a água escolhe
de saber como eu digo
de te ter pela rosa
pela mão pelo ombro
pelo sangue que me dás quando me dizes
diante da janela
diante da terra sem nome
quando me dizes
e quando eu ouço
esse gesto de semeares infâncias sem idade nenhuma
na minha pele abalada
pelo crescimento das árvores
das palavras
quando eu digo como te toco
onde tu não podes dizer onde tu sentes tudo
o que este lugar sente tudo
o que eu sinto
quando tu fazes com que eu queira
essa rosa que tens entre duas mãos
esse fogo tão raso tão cego
como entre dois lábios eu te quero o tempo todo
apenas por essa coisa tão coisa de querer
essa só coisa que tu tens
(sou tão-só um modo de querer
a amêndoa dos teus olhos)
um amor tão puro como um livro
cortado ao meio

Luis Felício
in “a sombra dos lugares”, 2011

LER

Dependendo da posição...
Segundo estudos recentes:
Em pé, fortalece a coluna;de cabeça baixa, estimula a circulação do sangue;
de barriga para cima é mais prazeroso;
sozinho, é estimulante, mas egoísta;
em grupo, pode até ser divertido;
no banho, pode ser arriscado;
no automóvel, é muito perigoso...
com frequência, desenvolve a imaginação;
entre duas pessoas, enriquece o conhecimento;
de joelhos, o resultado pode ser doloroso...
sobre a mesa ou no escritório,
antes de comer ou depois da sobremesa,
sobre a cama ou na rede,
nus ou vestidos,
sobre o sofá ou no tapete,
com música ou em silêncio,
entre lençóis ou no "closet":sempre é um acto de amor e de enriquecimento.Não importa a idade, nem a raça, nem a crença, nem o sexo,
nem a posição socioeconómica...

...Ler é sempre um prazer!!!...

DEFINITIVAMENTE, LER LEVA A DESFRUTAR DA IMAGINAÇÃO...
E VOCÊ ACABOU DE EXPERIMENTAR ESSE FACTO...

VÁ PROCURAR UM LIVRO!
 
Cecília Melo e Castro

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Está tudo bem, mãe

Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.

Manuel António Pina (18 de novembro de 1943 - 19 de Outubro de 2012)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A minha intimidade é pequena


A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
 
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo.

Ana Merino.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nuno Júdice

http://lh3.ggpht.com/-ED5aSUg5tFs/TzcH98HICiI/AAAAAAAAHZc/Tz7TalGXVFw/s1600-h/doisneau%252520conversa%25255B11%25255D.jpg


Encontro

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Poema: Nuno Júdice

via
http://ilhadeserta1.blogspot.com/

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Jorge Luís Borges

Nuvens (II)

Pelo ar andam plácidas montanhas,
Trágicas cordilheiras de penumbra
Que escurecem o Sol. Quem as vislumbra
Chama-lhes nuvens. As formas são estranhas.
Shakespeare observou uma. Era igual
A um dragão. Tal nuvem de uma tarde
Na sua fala resplandece e arde
E ainda hoje a vemos, afinal.
Que são as nuvens? Uma arquitectura
Do acaso? É Deus que delas necessita
Talvez para executar a Sua infinita
Obra e são fios dessa trama obscura.
Uma nuvem talvez seja tão vã
Como o homem que a vê nesta manhã.

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ruy Belo

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Ruy Belo 1

Ruy Belo

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Ruy Belo 2

Ruy Belo

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Ruy Belo 3

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Ruy Belo 4

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Ruy Belo 5

Ruy Belo

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Ruy Belo 7