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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Engraxanço e o Culambismo Português

O Engraxanço e o Culambismo Português - Miguel Esteves Cardoso

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador ...procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele. Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia. Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente com«engraxanço». Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores, os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc... Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada. O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador. Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu. O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu. Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo. (...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês. .

sábado, 22 de janeiro de 2011

22.01.2011

Reflexão


É chato, mas acontece

Por Miguel Esteves Cardoso


O dia da reflexão é aquele em que ficamos todos a olhar uns para os outros, como se nos víssemos ao espelho, como portugueses

Antes de ser ponderar, reflectir é outras coisas que também se fazem hoje. Flectir é dobrar e reflectir é voltar a dobrar. Nos dicionários antigos (e em muitos dos actuais), a primeira definição de reflectir que aparece é "fazer retroceder, desviando da primitiva direcção".

É essa a grande esperança de cada candidato à Presidência: que muitos eleitores que até aqui se inclinavam para votar num dos adversários, ou em nenhum, mudem de caminho para irem votar nele.

Esses eleitores reflectidos são os mais desejados. Cobiçam-se os mais infiéis e desinteressados, como se estes eleitores estivessem a fingir-se abstencionistas de propósito, para tornarem-se o centro de atenções dos candidatos.É uma das estratégias de engate mais antigas: quanto menos eu te ligar, mais tu hás-de querer ligar-te comigo.

A julgar pelo inquérito no PÚBLICO de ontem, todos os candidatos estão chumbados, a sensação que todos criaram foi de grande vazio e ninguém acredita nem neles nem que possam fazer alguma coisa de jeito.

O nome do dia da reflexão diz tudo. Se fosse a um dia de semana e desse direito a um feriado, ainda se aceitava, com um encolher de ombros, a sugestão paternalista que aproveitássemos parte do dia para reflectir sobre se e como vamos votar.

Assim, a um sábado, dá vontade de rir. A ideia de se fazer um intervalo na propaganda eleitoral é para quê? É com certeza porque as campanhas foram tão eficazes e aliciantes que, se não se suspendessem as artes mágicas de persuasão pública que os candidatos têm usado, nós, francamente, ficávamos com vontade de votar em dois ou três. Éramos lá capazes de escolher só um.

Por outro lado, não nos fica bem a nós, eleitores, queixarmo-nos que as campanhas foram pouco mobilizadoras quando sabemos perfeitamente que, com o estado de espírito com que estamos, com os cornos no ar e os dedos dos pés presos às pantufas, não havia, nunca houve, desde o primeiro dia de campanha, força nenhuma, nem humana nem intergaláctica, que fosse capaz de mobilizar um único dos nossos rabos.

Se éramos imobilizáveis, se fazíamos questão de ser, se só assim é que estávamos bem - e com muito orgulho - com que direito é que nos pomos a protestar que as campanhas foram frouxas e pouco imaginativas? Quem sabe se não houve uma ou outra que até foram fascinantes? Se calhar, houve. Nós é que não temos maneira de saber, porque não estávamos a prestar atenção, porque não estávamos para isso.

A reflexão mais comum no dia de hoje será de alívio: até que enfim que isto acabou. Já falta pouco para voltar tudo à cepa torta, da qual, verdade se diga, até já tínhamos algumas saudades.

via
http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/e-chato-mas-acontece_1476568

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

crónicas - MEC

Serviço Chá Japonês




O socorro do chá

"Estamos pobres mas, se já não podemos almoçar ou jantar fora, há luxos que saem barato. O maior e o mais barato de todos é o chá.
Em Novembro tomámos o afternoon tea no mais bonito e inglês lugar do mundo onde se pode lanchar cá fora: o terraço do Reid's no Funchal. Foi mais do que perfeito, como o pretérito. Os empregados, sobretudo, são os mais escorreitos cúmplices que se pode desejar, para cometer o delicioso crime, durante uma hora ou duas, de viver bem.
Esta semana instituímos aqui em casa, dada a nossa fraqueza financeira, o hábito do chá da tarde. É às quatro horas e não às cinco, como pensam os ignorantes. O chá do Reid's, aliás, começa, correctamente, às três e meiada tarde e acaba, com ainda maior correcção, às cinco.
fomos comprar chás de de folha solta. Os ingleses serão os maiores bárbaros do chá: bebem com leite e usam água a ferver. Mas, sendo filho de mãe inglesa e pai português, não posso senão achar que a técnica e cerimónia inglesa, quando é bem feita, tem uma graça europeia que deixa intactas as tradições chinesas e japonesas.
Cem gramas de bom chá Twining's - o suficiente para vinte bules - custam três euros. Um bule dá para dez chávenas. Cada chávena de bom chá sai a 1,5 cêntimos, mais o preço do leite, que é para aí 0,5 cêntimos, dando dois cêntimos por chávena.
Comprámos três pacotes de cem gramas, pesando 300 gramas. Vão dar 600 chávenas de chá. Haverá coisa mais leve, barata e gratificante? Não, não há."

Miguel Esteves Cardoso
«Ainda ontem»

via jornal PÚBLICO de 16 Dezembro 2010