António Guerreiro
Público/Ípsilon, 21.Junho.2013
«Em 1971, Roland Barthes escreveu, para a revista Tel Quel, um texto a que deu o titulo: Escritores, Intelectuais, Professores. Por si só, tal título mostra como os professores foram entretanto deslocados e já não pertencem a esse mundo de outrora. Eles surgiam então ao lado de outras duas respeitáveis classes (que, aliás, também já não têm o mesmo estatuto), enquanto detentores de uma autoridade adquirida automaticamente pela parole proƒessorale. Essa modalidade de discurso, herdeira da Retórica e dotada de uma autoridade moral conferida pelo saber, não podia sobreviver às novas condições que retiraram o saber da esfera exclusiva do cânone escolar e em que o professor, obrigado a responder a novos objectivos da escola que já nada têm que ver com a sua missão original (objectivos cada vez mais políticos: retardar a entrada dos jovens na vida activa, corrigir as desigualdades sociais, substituir a educação parental, policiar os costumes, etc.), teve que começar a enfrentar tarefas policiais, psico-sociais e de animação. A fortuna de um actual ministro que chegou ao seu posto à custa da denúncia do “eduquês” deve-se ao facto de, com esse chavão, ele apontar para um desvio da escola em relação a essa missão original que, presume-se, ele achava que podia e devia ser restaurada. Entretanto, em sentido contrário a uma tal missão, os professores têm sido submetidos - sem tréguas e desde há muitos anos - ao tratamento mais ignóbil a que uma classe profissional pode estar sujeita. Se quisermos utilizar um termo genérico para designar o que lhes foi infligido (para além das “sevícias” - da parte dos alunos, da parte dos pais - a que ficaram expostos a partir do momento em que lhes foi retirado todo o domínio) temos de falar de uma progressiva, sistemática e programada proletarização. Em que é que ela consiste? Numa total perda de autonomia, até ao ponto em que a actividade do professor deixou de ser uma actividade intelectual. A partir desse momento, a autoridade do professor - que, aliás, para existir é necessário que esteja integrada num sistema que a detenha – ficou completamente arruinada. O sinal mais óbvio dessa proletarização - aquele onde ela é exibida pela máquina governamental com uma clara intenção de humilhação - é o horário de trabalho. Dantes, o trabalho do professor compreendia o tempo controlado (o tempo lectivo) e o tempo autónomo, que ninguém conseguia avaliar exactamente a quanto correspondia - dependia do treino, dos escrúpulos, da responsabilidade e do sentido de missão do próprio professor. Dai, a ideia tão repetida de que os professores gozam (gozavam) de um horário privilegiado. Agora, não só o tempo de trabalho controlado aumentou bastante, como aquilo que deveria ser tido por conta de trabalho autónomo perdeu esse estatuto porque o Ministério o passou a contabilizar no horário oficial: trinta e cinco horas de trabalho na escola, mais cinco horas de trabalho em casa. Quem alguma vez foi professor sabe bem que essas cinco horas semanais estão longe de ser suficientes. Mas pior do que fazer horas extraordinárias que não são pagas é sentir que até o pouco que resta aos professores de tempo autónomo entra na contagem diabólica do tempo controlado. O horário dos professores pode até não ter efectivamente aumentado. Mas, em termos simbólicos, chegou-se à estação terminal que diz: proletarização.»
via
http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.pt/
"Na véspera de não partir nunca Ao menos não há que arrumar malas Nem que fazer planos em papel... Todos os dias é véspera de não partir nunca" Álvaro de Campos
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 24 de junho de 2013
domingo, 19 de maio de 2013
Perde o gato
Perde o gato
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, se não a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio – cor incomum em gatos comuns – e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio – pensei – dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Verkürzte Sequenz einer Videoinstallation von William Kentridge auf der dOKUMENTA (13) http://youtu.be/nJKwVP32v2s
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu – e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio – cor incomum em gatos comuns – e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio – pensei – dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
Carlos Drummond de Andrade
Verkürzte Sequenz einer Videoinstallation von William Kentridge auf der dOKUMENTA (13) http://youtu.be/nJKwVP32v2s
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
A vitória das formigas
por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
O Governo de Portugal está a ser vítima de uma enorme injustiça.
Jornalistas, comentadores, cidadãos em geral, acusam-no de um défice de comunicação, quando a realidade demonstra o contrário. Este é o Executivo que tem levado a criatividade das formas comunicacionais ao limite máximo, sem paralelo com nenhum anterior. O ministro das Finanças utilizou os quadros de Excel para desenhar os indicadores macroeconómicos de 2012. Face ao resvalar do défice e à escalada do desemprego não hesitou em deslumbrar o Conselho de Estado com um poderoso slide show em Power Point, que deve ter dissipado todas as dúvidas e lançado luz nos espíritos mais céticos. Mas o primeiro-ministro foi ainda mais longe. Depois de prometer um ataque frontalao rendimento do trabalho, em 7 de setembro, Passos regenerou-se, ontem, após um encontro com os parceiros sociais, fazendo um inédito anúncio sobre as medidas que-não-vai-tomar. Mas, para que ninguém fique excluído deste abraço comunicacional, o ministro da Administração Interna brindou a infância e as camadas mais sensíveis ao pensamento mágico com um dos tesouros de La Fontaine, celebrando a vitória final das formigas depois do inverno da austeridade (numa alusão críptica e subtil à novela A Metamorfose, de Kafka, em que o personagem Gregor se transforma num inseto). Não. O problema não reside no défice de comunicação, mas sim na teimosia da realidade. Na sua bruta indiferença, ela permanece insensível à incansável estratégia do diretório e dos seus representantes em Portugal. A realidade ainda não se convenceu de que uma política que destrói o tecido económico e devasta as relações sociais é a única via para retomar a prosperidade económica e recuperar a soberania perdida. Tanto pior para a realidade.
DN.
O Governo de Portugal está a ser vítima de uma enorme injustiça.
Jornalistas, comentadores, cidadãos em geral, acusam-no de um défice de comunicação, quando a realidade demonstra o contrário. Este é o Executivo que tem levado a criatividade das formas comunicacionais ao limite máximo, sem paralelo com nenhum anterior. O ministro das Finanças utilizou os quadros de Excel para desenhar os indicadores macroeconómicos de 2012. Face ao resvalar do défice e à escalada do desemprego não hesitou em deslumbrar o Conselho de Estado com um poderoso slide show em Power Point, que deve ter dissipado todas as dúvidas e lançado luz nos espíritos mais céticos. Mas o primeiro-ministro foi ainda mais longe. Depois de prometer um ataque frontalao rendimento do trabalho, em 7 de setembro, Passos regenerou-se, ontem, após um encontro com os parceiros sociais, fazendo um inédito anúncio sobre as medidas que-não-vai-tomar. Mas, para que ninguém fique excluído deste abraço comunicacional, o ministro da Administração Interna brindou a infância e as camadas mais sensíveis ao pensamento mágico com um dos tesouros de La Fontaine, celebrando a vitória final das formigas depois do inverno da austeridade (numa alusão críptica e subtil à novela A Metamorfose, de Kafka, em que o personagem Gregor se transforma num inseto). Não. O problema não reside no défice de comunicação, mas sim na teimosia da realidade. Na sua bruta indiferença, ela permanece insensível à incansável estratégia do diretório e dos seus representantes em Portugal. A realidade ainda não se convenceu de que uma política que destrói o tecido económico e devasta as relações sociais é a única via para retomar a prosperidade económica e recuperar a soberania perdida. Tanto pior para a realidade.
DN.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de junho de 2011
"A felicidade dos gatos faz-se por repetição"
Mas, se me permite, falarei do gato. Ou da gata, para ser mais preciso. É talvez o membro da família que eu mais inveje: será possível passar pela existência de uma forma tão serena, tão ociosa, tão elegante? […] Tudo nos gatos é insultuoso para nós e para as nossas vidas. A começar pela relação que eles mantêm com o tempo. Nós somos seres temporais por definição: vivemos sempre carregados de passado ou de futuro; do que fomos ou seremos; entre as memórias e as aspirações; e com a certeza da morte à nossa espera. Somos, numa palavra, patéticos. Esta específica temporalidade descentra-nos do presente, atira-nos para fora dele. Mas os gatos, pelo contrário, vivem cada momento de uma forma completa, total. E sabe porquê? O Mark Rowlands explica isso num livro notável sobre lobos: porque para os gatos, como para os lobos, a felicidade não se faz por adição - adição de novas experiências; novos lugares; novos objectos; novos projectos; novos amores. Essa dança macabra é só nossa. A felicidade dos gatos faz-se por repetição. Eles repetem o que lhes é significativo. Passo horas a olhar para a minha gata. Aprendi mais com ela do que em anos e anos de leituras filosóficas.
JPC, em entrevista à Pública
http://www.dailymotion.com/video/xik4kh_debtocracy-international-version_shortfilms
JPC, em entrevista à Pública
http://www.dailymotion.com/video/xik4kh_debtocracy-international-version_shortfilms
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O «mundo» dela
O «mundo» dela*
«Do livro (oficial), de autoria de um Bonifácio Qualquer Coisa (ou Qualquer Coisa Bonifácio, não me lembro) por onde eu e a minha geração estudámos Filosofia no antigo 7º ano ficaram-me para sempre duas expressões particularmente profundas. Uma a de que «o mundo é a casa dos rapazes e a casa é o mundo das raparigas»; outra a de que a distracção é própria «das crianças, dos sábios e dos basbaques».
A deputada socialista Inês Medeiros é muito nova e não deve decerto (mas que sei eu?) ter lido o Bonifácio. Mas o longo braço filosófico do lamentável Mestre parece ter, de algum sinuoso modo, alcançado a sua por assim dizer Weltanschauung. Porque a sua casa é, está visto, o seu «mundo». Só que, apesar de recenseada por Lisboa, esse «mundo» é em Paris. E precisa de ir lá todas as semanas para «fazer compras, ver se os filhos fizeram os trabalhos de casa, arrumar a casa, preparar a ementa para a semana». Por isso exige, justificadamente, que o Parlamento lhe pague semanalmente uma viagem de ida e volta a Paris. Na verdade, até deveria exigir viagens diárias porque uma boa «dona de casa» arruma o lar todos os dias, vai às compras todos os dias e verifica se os filhos fazem os deveres todos os dias e não só uma vez por semana. E vá lá que não tem casa na Lua, se não o Parlamento teria que lhe pagar o «Vaivém» espacial todas as semanas (ou todos os dias).
Quando aceitou representar o pindérico papel de deputada, ter-se-á distraído. Ou ninguém lhe disse que a Assembleia da República funcionava em Lisboa e não nos Grands Boulevards e, nesse caso, está perdoada, ou não lhe ocorreu que, parlamentando em Lisboa, não poderia, naturalmente, «arrumar a casa» em Paris e teria que contratar alguma femme de ménage ucraniana ou portuguesa; nem igualmente lhe terá ocorrido que, declamando em S. Bento, lhe seria problemático continuar a «fazer compras» em Paris; e muito menos ver (em Paris) «se os filhos fizeram os trabalhos de casa» e preparar (em Paris) «a ementa para a semana», tudo funções domésticas, como ensina Bonifácio, inalienáveis das «raparigas» (e das «esposas» e «mães»).
Vendo o vídeo da entrevista que, sobre o assunto, deu à Sábado, a deputada parece não ser uma criança e muito menos uma basbaque. Resta a hipótese de a sua distracção ser a própria dos sábios.
Talvez Inês Medeiros seja sábia, talvez não. Sabida, pelo menos, é. Se não veja-se o que diz na mesma entrevista sobre a controvérsia que vai na AR acerca da acusação de que Sócrates terá mentido no Parlamento: «Não sei se mentiu, se não mentiu, mas se mentiu nem acho que seja assim muito grave...»
A tirada não é feliz. Deveria ter dito, como está nos diálogos da peça, que o primeiro-ministro não mentiu e que grave é alguém acusá-lo disso. Também talvez não devesse ter dito tantas vezes «não sei» e «não me lembro» sobre os patrocínios que recebeu da PT e da REN, dos imaginosos e prolíficos autores Rui Pedro Soares & Penedos. É sempre triste ver uma actriz, mesmo secundária, incapaz de decorar um papel.»
* Manuel António Pina, jornalista
Março 2010
«Do livro (oficial), de autoria de um Bonifácio Qualquer Coisa (ou Qualquer Coisa Bonifácio, não me lembro) por onde eu e a minha geração estudámos Filosofia no antigo 7º ano ficaram-me para sempre duas expressões particularmente profundas. Uma a de que «o mundo é a casa dos rapazes e a casa é o mundo das raparigas»; outra a de que a distracção é própria «das crianças, dos sábios e dos basbaques».
A deputada socialista Inês Medeiros é muito nova e não deve decerto (mas que sei eu?) ter lido o Bonifácio. Mas o longo braço filosófico do lamentável Mestre parece ter, de algum sinuoso modo, alcançado a sua por assim dizer Weltanschauung. Porque a sua casa é, está visto, o seu «mundo». Só que, apesar de recenseada por Lisboa, esse «mundo» é em Paris. E precisa de ir lá todas as semanas para «fazer compras, ver se os filhos fizeram os trabalhos de casa, arrumar a casa, preparar a ementa para a semana». Por isso exige, justificadamente, que o Parlamento lhe pague semanalmente uma viagem de ida e volta a Paris. Na verdade, até deveria exigir viagens diárias porque uma boa «dona de casa» arruma o lar todos os dias, vai às compras todos os dias e verifica se os filhos fazem os deveres todos os dias e não só uma vez por semana. E vá lá que não tem casa na Lua, se não o Parlamento teria que lhe pagar o «Vaivém» espacial todas as semanas (ou todos os dias).
Quando aceitou representar o pindérico papel de deputada, ter-se-á distraído. Ou ninguém lhe disse que a Assembleia da República funcionava em Lisboa e não nos Grands Boulevards e, nesse caso, está perdoada, ou não lhe ocorreu que, parlamentando em Lisboa, não poderia, naturalmente, «arrumar a casa» em Paris e teria que contratar alguma femme de ménage ucraniana ou portuguesa; nem igualmente lhe terá ocorrido que, declamando em S. Bento, lhe seria problemático continuar a «fazer compras» em Paris; e muito menos ver (em Paris) «se os filhos fizeram os trabalhos de casa» e preparar (em Paris) «a ementa para a semana», tudo funções domésticas, como ensina Bonifácio, inalienáveis das «raparigas» (e das «esposas» e «mães»).
Vendo o vídeo da entrevista que, sobre o assunto, deu à Sábado, a deputada parece não ser uma criança e muito menos uma basbaque. Resta a hipótese de a sua distracção ser a própria dos sábios.
Talvez Inês Medeiros seja sábia, talvez não. Sabida, pelo menos, é. Se não veja-se o que diz na mesma entrevista sobre a controvérsia que vai na AR acerca da acusação de que Sócrates terá mentido no Parlamento: «Não sei se mentiu, se não mentiu, mas se mentiu nem acho que seja assim muito grave...»
A tirada não é feliz. Deveria ter dito, como está nos diálogos da peça, que o primeiro-ministro não mentiu e que grave é alguém acusá-lo disso. Também talvez não devesse ter dito tantas vezes «não sei» e «não me lembro» sobre os patrocínios que recebeu da PT e da REN, dos imaginosos e prolíficos autores Rui Pedro Soares & Penedos. É sempre triste ver uma actriz, mesmo secundária, incapaz de decorar um papel.»
* Manuel António Pina, jornalista
Março 2010
sábado, 22 de janeiro de 2011
22.01.2011
Reflexão
É chato, mas acontece
Por Miguel Esteves Cardoso
O dia da reflexão é aquele em que ficamos todos a olhar uns para os outros, como se nos víssemos ao espelho, como portugueses
Antes de ser ponderar, reflectir é outras coisas que também se fazem hoje. Flectir é dobrar e reflectir é voltar a dobrar. Nos dicionários antigos (e em muitos dos actuais), a primeira definição de reflectir que aparece é "fazer retroceder, desviando da primitiva direcção".
É essa a grande esperança de cada candidato à Presidência: que muitos eleitores que até aqui se inclinavam para votar num dos adversários, ou em nenhum, mudem de caminho para irem votar nele.
Esses eleitores reflectidos são os mais desejados. Cobiçam-se os mais infiéis e desinteressados, como se estes eleitores estivessem a fingir-se abstencionistas de propósito, para tornarem-se o centro de atenções dos candidatos.É uma das estratégias de engate mais antigas: quanto menos eu te ligar, mais tu hás-de querer ligar-te comigo.
A julgar pelo inquérito no PÚBLICO de ontem, todos os candidatos estão chumbados, a sensação que todos criaram foi de grande vazio e ninguém acredita nem neles nem que possam fazer alguma coisa de jeito.
O nome do dia da reflexão diz tudo. Se fosse a um dia de semana e desse direito a um feriado, ainda se aceitava, com um encolher de ombros, a sugestão paternalista que aproveitássemos parte do dia para reflectir sobre se e como vamos votar.
Assim, a um sábado, dá vontade de rir. A ideia de se fazer um intervalo na propaganda eleitoral é para quê? É com certeza porque as campanhas foram tão eficazes e aliciantes que, se não se suspendessem as artes mágicas de persuasão pública que os candidatos têm usado, nós, francamente, ficávamos com vontade de votar em dois ou três. Éramos lá capazes de escolher só um.
Por outro lado, não nos fica bem a nós, eleitores, queixarmo-nos que as campanhas foram pouco mobilizadoras quando sabemos perfeitamente que, com o estado de espírito com que estamos, com os cornos no ar e os dedos dos pés presos às pantufas, não havia, nunca houve, desde o primeiro dia de campanha, força nenhuma, nem humana nem intergaláctica, que fosse capaz de mobilizar um único dos nossos rabos.
Se éramos imobilizáveis, se fazíamos questão de ser, se só assim é que estávamos bem - e com muito orgulho - com que direito é que nos pomos a protestar que as campanhas foram frouxas e pouco imaginativas? Quem sabe se não houve uma ou outra que até foram fascinantes? Se calhar, houve. Nós é que não temos maneira de saber, porque não estávamos a prestar atenção, porque não estávamos para isso.
A reflexão mais comum no dia de hoje será de alívio: até que enfim que isto acabou. Já falta pouco para voltar tudo à cepa torta, da qual, verdade se diga, até já tínhamos algumas saudades.
via
http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/e-chato-mas-acontece_1476568
É chato, mas acontece
Por Miguel Esteves Cardoso
O dia da reflexão é aquele em que ficamos todos a olhar uns para os outros, como se nos víssemos ao espelho, como portugueses
Antes de ser ponderar, reflectir é outras coisas que também se fazem hoje. Flectir é dobrar e reflectir é voltar a dobrar. Nos dicionários antigos (e em muitos dos actuais), a primeira definição de reflectir que aparece é "fazer retroceder, desviando da primitiva direcção".
É essa a grande esperança de cada candidato à Presidência: que muitos eleitores que até aqui se inclinavam para votar num dos adversários, ou em nenhum, mudem de caminho para irem votar nele.
Esses eleitores reflectidos são os mais desejados. Cobiçam-se os mais infiéis e desinteressados, como se estes eleitores estivessem a fingir-se abstencionistas de propósito, para tornarem-se o centro de atenções dos candidatos.É uma das estratégias de engate mais antigas: quanto menos eu te ligar, mais tu hás-de querer ligar-te comigo.
A julgar pelo inquérito no PÚBLICO de ontem, todos os candidatos estão chumbados, a sensação que todos criaram foi de grande vazio e ninguém acredita nem neles nem que possam fazer alguma coisa de jeito.
O nome do dia da reflexão diz tudo. Se fosse a um dia de semana e desse direito a um feriado, ainda se aceitava, com um encolher de ombros, a sugestão paternalista que aproveitássemos parte do dia para reflectir sobre se e como vamos votar.
Assim, a um sábado, dá vontade de rir. A ideia de se fazer um intervalo na propaganda eleitoral é para quê? É com certeza porque as campanhas foram tão eficazes e aliciantes que, se não se suspendessem as artes mágicas de persuasão pública que os candidatos têm usado, nós, francamente, ficávamos com vontade de votar em dois ou três. Éramos lá capazes de escolher só um.
Por outro lado, não nos fica bem a nós, eleitores, queixarmo-nos que as campanhas foram pouco mobilizadoras quando sabemos perfeitamente que, com o estado de espírito com que estamos, com os cornos no ar e os dedos dos pés presos às pantufas, não havia, nunca houve, desde o primeiro dia de campanha, força nenhuma, nem humana nem intergaláctica, que fosse capaz de mobilizar um único dos nossos rabos.
Se éramos imobilizáveis, se fazíamos questão de ser, se só assim é que estávamos bem - e com muito orgulho - com que direito é que nos pomos a protestar que as campanhas foram frouxas e pouco imaginativas? Quem sabe se não houve uma ou outra que até foram fascinantes? Se calhar, houve. Nós é que não temos maneira de saber, porque não estávamos a prestar atenção, porque não estávamos para isso.
A reflexão mais comum no dia de hoje será de alívio: até que enfim que isto acabou. Já falta pouco para voltar tudo à cepa torta, da qual, verdade se diga, até já tínhamos algumas saudades.
via
http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/e-chato-mas-acontece_1476568
sábado, 4 de dezembro de 2010
Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre
Crónica Inês Pedrosa no Expresso
Pilar, José e o amor
Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre.
O estereótipo de há cinquenta anos rezava: «casaram e foram felizes para sempre». O estereótipo contemporâneo preconiza: «casamento, pantufas, aborrecimento». Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres, e que precisa de ser estimado como milagre concreto.
As pessoas casam-se trocando juras de amor já com os códigos do divórcio e das partilhas debaixo do braço. Ou casam-se ainda no mito da paixão inexpugnável, e depois deixam-se pasmar atarantadas diante dos cacos da paixão misturados com as peúgas de anteontem. Ou casam-se por interesse, isto é: escolhendo, como no supermercado, o pedaço de homem ou mulher que mais garantias dá de criar bem os filhos e de fazer uma boa dupla sócio-económica. Os casamentos «arranjados» desapareceram da civilização ocidental mas são frequentemente substituídos pelos casamentos de conveniência – versão ainda mais triste, porque sonsa, feita de faqueiros e fancaria, dos explícitos arranjos familiares e comerciais de outrora. Ganhámos medo do amor, e o medo amarfanha. A literatura lançou um estereótipo avassalador: o de que o amor só pode ser chamejante em estado de clandestinidade. A experiência das ditaduras, mais ou menos universal, criou um modelo infantil de relação: o do grupo de resistentes bonzinhos que agem pela calada contra a sociedade dos maus. É dessa matéria que são feitos os livros da Enid Blyton e os sonhos da adolescência. A associação absoluta entre o prazer e a clandestinidade mata as alegrias da vida adulta.
O belíssimo filme de Miguel Gonçalves Mendes, «José e Pilar», demonstra que as coisas não têm de ser assim: o amor pode ser público e oficial ( é difícil imaginar uma relação mais pública e oficial do que esta, assumida em duas cerimónias de casamento) e permanecer íntimo, faiscante, vivo. A história do início da relação entre Pilar e José é apenas aflorada por José, para esclarecer que Pilar nunca, ao contrário do que se disse, o entrevistou: telefonou-lhe dizendo que era jornalista, leitora e admiradora sua, e que queria conhecê-lo. José acrescenta que mal a viu chegar percebeu que aquilo era sério. Este abalo imediato e definitivo está descrito de um modo sublime no romance «História do Cerco de Lisboa» – mas isso já não consta do filme. Porque a singularidade deste filme está em começar anos depois do beijo fulgurante que sinaliza a união do par, para nos dar a ver exactamente isso em que nos custa tanto a acreditar: a vida que um amor pode ter, mais de vinte anos depois de ter começado. Pilar e José são duas personalidades fortíssimas, contrastantes, muitas vezes discordantes. A cena em que discutem por causa de Hillary Clinton ( que Pilar defende e José ataca) é exemplar quanto à vivacidade de cada um deles – e desse amor, que não só resiste a todas as discussões como parece alimentar-se delas. A química intensa que se desenha no ar sempre que eles estão juntos – um olhar, uma carícia, um abraço, o corpo de um procurando continuamente o corpo do outro – constitui a pedra de toque deste documentário, de uma imensa delicadeza. «Pilar e José» não é sobre a vida de uma vedeta da literatura ( embora a contenha, inevitavelmente) – é sobre a relação de amor entre duas pessoas particularmente expostas.
José dirá, a dado momento, que se pudesse voltar a viver a sua vida, repeti-la-ia toda, exactamente como foi. Parece estranha, esta afirmação, por parte do mesmo homem que diz: «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer a Pilar, morreria muito mais velho do que aquilo que sou». Na dedicatória das suas memórias de infância ( « As Pequenas Memórias»), José escreveu: «A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar». Então, porque não diz José que, numa segunda vida, preferiria conhecer Pilar vinte anos mais cedo? Provavelmente, porque vinte anos antes não saberiam fazer durar o amor. Aprende-se a amar
( como a correr ou a desenhar) caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.
Pilar, José e o amor
Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre.
O estereótipo de há cinquenta anos rezava: «casaram e foram felizes para sempre». O estereótipo contemporâneo preconiza: «casamento, pantufas, aborrecimento». Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres, e que precisa de ser estimado como milagre concreto.
As pessoas casam-se trocando juras de amor já com os códigos do divórcio e das partilhas debaixo do braço. Ou casam-se ainda no mito da paixão inexpugnável, e depois deixam-se pasmar atarantadas diante dos cacos da paixão misturados com as peúgas de anteontem. Ou casam-se por interesse, isto é: escolhendo, como no supermercado, o pedaço de homem ou mulher que mais garantias dá de criar bem os filhos e de fazer uma boa dupla sócio-económica. Os casamentos «arranjados» desapareceram da civilização ocidental mas são frequentemente substituídos pelos casamentos de conveniência – versão ainda mais triste, porque sonsa, feita de faqueiros e fancaria, dos explícitos arranjos familiares e comerciais de outrora. Ganhámos medo do amor, e o medo amarfanha. A literatura lançou um estereótipo avassalador: o de que o amor só pode ser chamejante em estado de clandestinidade. A experiência das ditaduras, mais ou menos universal, criou um modelo infantil de relação: o do grupo de resistentes bonzinhos que agem pela calada contra a sociedade dos maus. É dessa matéria que são feitos os livros da Enid Blyton e os sonhos da adolescência. A associação absoluta entre o prazer e a clandestinidade mata as alegrias da vida adulta.
O belíssimo filme de Miguel Gonçalves Mendes, «José e Pilar», demonstra que as coisas não têm de ser assim: o amor pode ser público e oficial ( é difícil imaginar uma relação mais pública e oficial do que esta, assumida em duas cerimónias de casamento) e permanecer íntimo, faiscante, vivo. A história do início da relação entre Pilar e José é apenas aflorada por José, para esclarecer que Pilar nunca, ao contrário do que se disse, o entrevistou: telefonou-lhe dizendo que era jornalista, leitora e admiradora sua, e que queria conhecê-lo. José acrescenta que mal a viu chegar percebeu que aquilo era sério. Este abalo imediato e definitivo está descrito de um modo sublime no romance «História do Cerco de Lisboa» – mas isso já não consta do filme. Porque a singularidade deste filme está em começar anos depois do beijo fulgurante que sinaliza a união do par, para nos dar a ver exactamente isso em que nos custa tanto a acreditar: a vida que um amor pode ter, mais de vinte anos depois de ter começado. Pilar e José são duas personalidades fortíssimas, contrastantes, muitas vezes discordantes. A cena em que discutem por causa de Hillary Clinton ( que Pilar defende e José ataca) é exemplar quanto à vivacidade de cada um deles – e desse amor, que não só resiste a todas as discussões como parece alimentar-se delas. A química intensa que se desenha no ar sempre que eles estão juntos – um olhar, uma carícia, um abraço, o corpo de um procurando continuamente o corpo do outro – constitui a pedra de toque deste documentário, de uma imensa delicadeza. «Pilar e José» não é sobre a vida de uma vedeta da literatura ( embora a contenha, inevitavelmente) – é sobre a relação de amor entre duas pessoas particularmente expostas.
José dirá, a dado momento, que se pudesse voltar a viver a sua vida, repeti-la-ia toda, exactamente como foi. Parece estranha, esta afirmação, por parte do mesmo homem que diz: «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer a Pilar, morreria muito mais velho do que aquilo que sou». Na dedicatória das suas memórias de infância ( « As Pequenas Memórias»), José escreveu: «A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar». Então, porque não diz José que, numa segunda vida, preferiria conhecer Pilar vinte anos mais cedo? Provavelmente, porque vinte anos antes não saberiam fazer durar o amor. Aprende-se a amar
( como a correr ou a desenhar) caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
"O filho mais velho é o casamento deles"
Crónica: Um segredo de um casamento feliz
Por Miguel Esteves Cardoso
"Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.
Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.
Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.
O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.
O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.
Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.
Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.
Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.
E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.
As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.
Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.
Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar."
domingo, 10 de outubro de 2010
Elogio da participação na política
No "Público" de 10 de Outubro de 2010
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhdX8Xg5bu13n-yiijoMCKwgWXS6dx5aSA3pJLcHaqq9-4cyYqll84MDBZex4vQztU-P9jAp87pUMxB8T_6oUfWn2vB6WyFv3eHqD5o2dZO8itMe4BBQCols2RsVrTFAvUmE-BejEnyM-b1/s1600/bento+domingues+elogio+da+participa%C3%A7%C3%A3o+na+pol%C3%ADtica.jpg
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhdX8Xg5bu13n-yiijoMCKwgWXS6dx5aSA3pJLcHaqq9-4cyYqll84MDBZex4vQztU-P9jAp87pUMxB8T_6oUfWn2vB6WyFv3eHqD5o2dZO8itMe4BBQCols2RsVrTFAvUmE-BejEnyM-b1/s1600/bento+domingues+elogio+da+participa%C3%A7%C3%A3o+na+pol%C3%ADtica.jpg
Subscrever:
Mensagens (Atom)