(...) Decidi! Está decidido! Vou sair. Vou pintar os olhos, espalhar a sombra de cor escura, desenhar com pulso incerto dois riscos de eyeliner castanho, um em cada olho e agora o rimmel com muito cuidado, ao mesmo tempo aplicado com vigor, pestanas que se inteiriçam, olhos no ar, presos no ar, enfeitiçados no ar que me envolve, um pouco de blush que me faz feliz, nas bochechas altas, linda, sim estou linda, interessante, eu diria, são os olhos que realçam, escada abaixo, são somente dois andares e escapam-se-me os degraus, vou saltando dois a dois, o espelho ficou para trás, tudo num desalinho, o sofá desarrumado, a janela escancarada, o rio já a querer entrar, o tal cheiro a dissipar, vem a onda e mais a onda, atravesso agora a rua, entro no meu próprio carro, toda a roupagem da água vem a mim a marulhar, desato a gritar por ti, estou quase, quase a chegar, espera por mim, espera, espera, tu que estás bem por aí, sentado no paredão, mesmo assim em frente ao mar.
Cristina Carvalho em "Amar Sem Limites"
http://youtu.be/5lg_LbxA2UE
"Na véspera de não partir nunca Ao menos não há que arrumar malas Nem que fazer planos em papel... Todos os dias é véspera de não partir nunca" Álvaro de Campos
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sábado, 5 de outubro de 2013
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
“SÓ ENTRE NÓS”, Luís Osório
“SÓ ENTRE NÓS”, Luís Osório
Chiado Editora, 2012
«Ensinaram-me há muitos anos que um bom livro é aquele que podemos sempre abrir ao acaso, porque em qualquer página, em qualquer parágrafo, encontramos sempre aquilo que procuramos.
Por isso este livro de Luís Osório é um bom livro. Abre-se e está lá a frase que nos vai tocar, a expressão que procurávamos, a palavra que nos pode salvar o dia.
Luis Osório é jornalista. De jornal, de rádio, de televisão. Os mais velhos recordam, certamente, o “Lentes de Contacto”, que foi dos melhores programas juvenis que a televisão alguma vez apresentou.
Mais recentemente, lembramo-nos todos, com certeza, do “Zapping” e do “Portugalmente”.
Mas este livro não trata de nada dessas coisas. Ou trata de tudo.
Com prefácio de Adriano Moreira, “Só Entre Nós”—constituído por pequenas crónicas, pequenos textos de reflexão– é, muito possivelmente, dos melhores livros de auto-ajuda a que podemos recorrer neste tempo de crise.
Claro que não é, nem de perto nem de longe, aquilo que vulgarmente se entende por livro de auto-ajuda, tipo, vamos-sorrir-muito-e-dar-as-mãos-e-olhar-o-nascer-do-sol e outras tretas afins. Este é, assumidamente, um livro desencantado, talvez mesmo pessimista – mas é aí que está a sua força (“é mais fácil o pessimismo. Como é mais simples libertar a raiva “).Porque é através desse sentimento que temos de procurar um caminho e ir mais longe.
“Viver”, diz o autor logo no início, “é procurar até ao fim e com o tempo perceber que as respostas que julgávamos tão certas vão-se tornando cada vez mais escassas.”
Mas é essa procura constante que dá sentido à nossa vida: “não estamos condenados à infelicidade, pensá-lo é desistir do caminho. (…) Sei que não encontrarei a felicidade, mas é na sua perseguição que encontro o melhor de mim. Sim, talvez o nosso sentido esteja na forma como não desistimos do que é impossível— quem não desiste da luz jamais encontrará a escuridão”.
É um livro que se vai lendo. Que se vai relendo. Que se sublinha. Que pede anotações nas margens. Em que se volta atrás. Em que se podem passar páginas e voltar a elas depois.
Fala-se da vida, do envelhecimento, de solidão, de dor (“a dor e o sofrimento são um tijolo importante em todas as casas que construímos”), da morte, da perda (“Que nome dás a uma mãe ou um pai que perde um filho? Que palavras usas? Em que alfabeto o procuras?”) ,dos filhos que crescem à nossa revelia(“o ruído dos nossos filhos leva-nos quase à demência, mas o barulho da sua ausência é ensurdecedor”) Fala-se de Deus e da sua procura (“vivo Deus sem necessidade de viver a religião” Fala-se muito de amor.
Mas também se fala muito da política, das cidades, das aparentemente banalidades do dia a dia, (“Não sei cozinhar. Mudar uma lâmpada só se for das de desatarraxar. Nunca guiei um carro. Nadar só de costas e mal. Montar móveis uma absoluta utopia. Um problema no esquentador é o princípio do fim do mundo”), dos lugares comuns que inundam a nossa vida – e que bem que, às vezes, eles nos fazem…
Os textos curtos facilitam a leitura. Mas damos por nós a voltar atrás muitas vezes, e a reler o que já vamos quase sabendo de cor.
Um livro a ter à cabeceira. Porque nunca se sabe.»
ALICE VIEIRA
Chiado Editora, 2012
«Ensinaram-me há muitos anos que um bom livro é aquele que podemos sempre abrir ao acaso, porque em qualquer página, em qualquer parágrafo, encontramos sempre aquilo que procuramos.
Por isso este livro de Luís Osório é um bom livro. Abre-se e está lá a frase que nos vai tocar, a expressão que procurávamos, a palavra que nos pode salvar o dia.
Luis Osório é jornalista. De jornal, de rádio, de televisão. Os mais velhos recordam, certamente, o “Lentes de Contacto”, que foi dos melhores programas juvenis que a televisão alguma vez apresentou.
Mais recentemente, lembramo-nos todos, com certeza, do “Zapping” e do “Portugalmente”.
Mas este livro não trata de nada dessas coisas. Ou trata de tudo.
Com prefácio de Adriano Moreira, “Só Entre Nós”—constituído por pequenas crónicas, pequenos textos de reflexão– é, muito possivelmente, dos melhores livros de auto-ajuda a que podemos recorrer neste tempo de crise.
Claro que não é, nem de perto nem de longe, aquilo que vulgarmente se entende por livro de auto-ajuda, tipo, vamos-sorrir-muito-e-dar-as-mãos-e-olhar-o-nascer-do-sol e outras tretas afins. Este é, assumidamente, um livro desencantado, talvez mesmo pessimista – mas é aí que está a sua força (“é mais fácil o pessimismo. Como é mais simples libertar a raiva “).Porque é através desse sentimento que temos de procurar um caminho e ir mais longe.
“Viver”, diz o autor logo no início, “é procurar até ao fim e com o tempo perceber que as respostas que julgávamos tão certas vão-se tornando cada vez mais escassas.”
Mas é essa procura constante que dá sentido à nossa vida: “não estamos condenados à infelicidade, pensá-lo é desistir do caminho. (…) Sei que não encontrarei a felicidade, mas é na sua perseguição que encontro o melhor de mim. Sim, talvez o nosso sentido esteja na forma como não desistimos do que é impossível— quem não desiste da luz jamais encontrará a escuridão”.
É um livro que se vai lendo. Que se vai relendo. Que se sublinha. Que pede anotações nas margens. Em que se volta atrás. Em que se podem passar páginas e voltar a elas depois.
Fala-se da vida, do envelhecimento, de solidão, de dor (“a dor e o sofrimento são um tijolo importante em todas as casas que construímos”), da morte, da perda (“Que nome dás a uma mãe ou um pai que perde um filho? Que palavras usas? Em que alfabeto o procuras?”) ,dos filhos que crescem à nossa revelia(“o ruído dos nossos filhos leva-nos quase à demência, mas o barulho da sua ausência é ensurdecedor”) Fala-se de Deus e da sua procura (“vivo Deus sem necessidade de viver a religião” Fala-se muito de amor.
Mas também se fala muito da política, das cidades, das aparentemente banalidades do dia a dia, (“Não sei cozinhar. Mudar uma lâmpada só se for das de desatarraxar. Nunca guiei um carro. Nadar só de costas e mal. Montar móveis uma absoluta utopia. Um problema no esquentador é o princípio do fim do mundo”), dos lugares comuns que inundam a nossa vida – e que bem que, às vezes, eles nos fazem…
Os textos curtos facilitam a leitura. Mas damos por nós a voltar atrás muitas vezes, e a reler o que já vamos quase sabendo de cor.
Um livro a ter à cabeceira. Porque nunca se sabe.»
ALICE VIEIRA
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