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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Alguém disse palácio para dizer mulher

Alguém disse palácio para dizer mulher
ou a delícia de um nome q
ue era desejo e mundo
Um delicado navio rasgava o corpo na ausência
e morria na espuma de uns amorosos pés
da volúvel semelhança de uma estátua de veludo
Era apenas um nome a abolição de um nome
descobrindo a primavera absoluta
com os ramos brancos de uma estrela
perfeita nos músculos de lâmpada
No alto poderio das pernas no sumptuoso espelho
das ancas verdes cintilava o palácio
da adoração primeira com janelas de um navio
de sombra e de silêncio em que o oiro estremecia
Opulenta pálpebra povoada
pelos frutos da água e de um fogo azul
E se o nome morria na respiração do seio
a sua ferida era límpida e puro era o deserto
 
ANTÓNIO RAMOS ROSA, in Os animais do Sol e da Sombra seguido de O Corpo Inicial (Quási, 2003) 

 


http://youtu.be/ml8Am9KIMsQ

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

PARA JOSÉ AFONSO

o canto que se erguia
na tua voz de vento
era de sangue e oiro
e um astro insubmisso
que era menino e homem
fulgurava nas águas
entre fogos silvestres.
Cantavas para todos
os acordes da terra,
os obscuros gritos
e os delírios e as fúrias
de uma revolta justa
contra eternos vampiros.
Que imensa a aventura
da luz por entre as sombras!
A vida convertia-se
num rio incandescente
e num prodígio branco
o canto sobre os barcos!
E o desejo tão fundo
centrava-se num ponto
em que atingia o uno
e a claridade intacta.
O canto era carícia
para uma ferida extrema
que era de todos nós
na angústia insustentável.
Mas ressurgia dela
a mais fina energia
ressuscitando o ser
em plenitude de água
e de um fogo amoroso.
É já manhã cantor
e o teu canto não cessa
onde não há a morte
e o coração começa.


 António ramos Rosa