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quinta-feira, 8 de março de 2012

Corpo de Mulher

leonardo

Corpo de Mulher

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas
[brancas,
pareces-te com o mundo na tua atitude de
[entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiam os
[pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão
[poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra
na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e
[triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu
[caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.

Pablo Neruda, in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Ode à cebola

cebola7.jpg


Cebola

Luminosa redoma

pétala a pétala

cresceu a tua formosura

escamas de cristal te acrescentaram

e no segredo da terra escura

se foi arredondando o teu ventre de orvalho.

Sob a terra

foi o milagre

e quando apareceu

o teu rude caule verde

e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,

a terra acumulou o seu poderio

mostrando a tua nua transparência,

e como em Afrodite o mar remoto

duplicou a magnólia

levantando os seus seios,

a terraassim te fez

cebola

clara como um planeta

a reluzir,

constelação constante,

redonda rosa de água,

sobre

a mesa

das gentes pobres.



Generosa

desfazes

o teu globo de frescura

na consumação

fervente da frigideira

e os estilhaços de cristal

no calor inflamado do azeite

transformam-se em frisadas plumas de ouro.



Também recordarei como fecunda

a tua influência, o amor, na salada

e parece que o céu contribui

dando-te fina forma de granizo

a celebrar a tua claridade picada

sobre os hemisférios de um tomate.

Mas ao alcance

das mãos do povo

regada com azeite

polvilhada

com um pouco de sal,

matas a fome

do jornaleiro no seu duro caminho.

Estrela dos pobres,

fada madrinha

envolvida em delicado

papel, sais do chão

eterna, intacta, pura

como semente de um astro

e ao cortar-te

a faca na cozinha

sobe a única

lágrima sem pena.

Fizeste-nos chorar sem nos afligir.



Eu tudo o que existe celebrei, cebola

mas para mim és

mais formosa que uma ave

de penas radiosas

és para os meus olhos

globo celeste, taça de platina

baile imóvel

de nívea anémona



e vive a fragância da Terra

na tua natureza cristalina.







Pablo Neruda



http://www.eldigoras.com/eom03/2004/2/30neruda1918.htm

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O teu riso



O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda


via
http://www.fabiorocha.com.br/neruda.htm